[Opinião] “Boneca de luxo” de Truman Capote

truman capote - boneca de luxo

Vou admitir: peguei neste livro por ser pequeno! Há sempre um motivo, mais ou menos lógico, para me fazer pegar num livro e desta vez foi mesmo porque queria um livro que não demorasse muito a ser lido. Foi um risco, porque nem sempre os livros pequenos se lêem rápido (assim como os há de grande dimensão e fácil leitura), mas resolvi tentar.

Em primeiro lugar, e embora perceba o título que lhe foi dado em Portugal, acho que prefiro o título original: Breakfast at Tiffany’s. Sim, é mesmo a Tiffany’s que vende jóias em Nova Iorque! Tudo isto porque a nossa personagem principal, Holly, gostava de cometer a excentricidade de ir lá tomar o seu pequeno almoço.

Em Boneca de luxo, história contada pelo vizinho de Holly, temos uma Holly tresloucada, ingénua, inconsequente, sedutora, deslumbrante, espirituosa, vulnerável e cuja conduta, por vezes, pode roçar o reprovável. Sim, é isto tudo! E é tudo isto que torna a Holly uma personagem tão marcante na literatura do século XX. Não posso dizer que haja algum acontecimento particularmente marcante em todo este livro, porque o marco é mesmo a Holly. E já escrevi este nome tantas vezes, mas a verdade é que é mesmo ela, um “animal selvagem” constantemente “em viagem”, com o seu particular jeito para se meter em enrascadas e que levanta a discussão sobre a definição de “prostituição”, que dá brilho a este livro.

Este livro, aliás, é a prova de que não é preciso escrever-se um calhamaço para se ter um bom livro, que marque e que diga muito. As personagens são bem construídas, a escrita é limpa e sem floreados. Bem como eu gosto. É fácil gostar de Capote assim!

Talvez conheçam esta história, que data de 1958, através do filme que foi lançado posteriormente (1961). Ainda não vi o filme porque já me avisaram que é ligeiramente diferente do livro e conhecem aquele medo meio infundado que todos nós, leitores, temos de ver um livro no grande ecrã, não conhecem?! Mas, mesmo que o tenham feito, aqui fica uma dica de um livro que facilmente conseguem ler numa tarde…

“Mas não podemos confiar o coração a um animal selvagem: quanto mais lhe damos, mais forte fica. Até ter força suficiente para largar a correr para a floresta. Ou voar para uma árvore. E depois para uma árvore mais alta. E depois para o céu. É o que lhe vai acontecer, Mr. Bell, se se apaixonar por um animal selvagem. Acaba a olhar para o céu.”

[Opinião] “As serviçais” de Kathyrn Stockett

kathryn stockett - as serviçais

Mas que livro! Entrou assim fácil, fácil para a minha lista de livros favoritos! O filme, aliás, que eu já tinha visto há uns anos aquando do seu lançamento, já me tinha tocado bastante. Mas vamos por partes…

Em resumo, esta é uma história sobre segregação racial. Passada em 1962, aqui Kathryn Sockett mostra-nos as diferenças entre negros, os criados encarregues de todo e qualquer serviço, e brancos, patrões que dependem dos negros para tudo (incluindo criar os seus filhos), numa sociedade americana ainda bastante hierarquizada. Mesmo depois de Rosa Parks ter posto fim à separação entre pretos e brancos nos autocarros, ainda temos nesta década de 60 uma separação bem acentuada entre raças. É de dar nos nervos! Os negros tinham, por exemplo, uma casa de banho (ou devo dizer um cubículo?) à parte na casa dos patrões, não usavam a mesma louça, não frequentavam as mesmas bibliotecas e nem pensar em casarem-se uns com os outros. Custa um pouco a crer que isto aconteceu até há bem poucas décadas atrás, não custa? Quer dizer, o pior é que na cabeça de muita gente, infelizmente, tal ainda faz sentido. E é por isso mesmo que admiro as personagens principais deste livro!

Nele temos Aibileen, uma criada negra que perdeu o seu único filho e que há já vários anos se dedica a criar os filhos das desatentas patroas brancas; Minny, outra criada negra um pouco mais nova que Aibeleen, com vários filhos, um marido bêbado e um temperamento esquentado, e Eugenia “Skeeter” (mosquito), uma branca que quer ser jornalista e que tem uma particular sensibilidade para estas questões da segregação racial devido, em parte, à afeição que tem pela criada que a criou e cujo paradeiro desconhece. Não posso deixar de mencionar também Hilly, uma patroa bastante irritante, cruel, insensível, invejosa, mandona, mal amada e que chega mesmo a dar pena (sobretudo por uma coisa terrivelmente engraçada que a apaixonante Minny lhe faz!). Embora Hilly não seja considerada uma personagem principal, a história gira muito em torno dela…

O caminho destas três personagens principais (que também são narradoras da história alternadamente) vai acabar por cruzar-se inesperadamente e vai acabar por resultar numa forte amizade e na mobilização de toda uma comunidade. O final não é tão definido e definitivo como eu gostaria que tivesse sido, mas este livro é tão delicioso que tudo lhe é permitido!

Leiam-no. Leiam-no porque não se vão arrepender!

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