[Opinião] “Sozinhos na ilha” de Tracey Garvis Graves

Tracey Garvis Graves - Sozinhos na ilha

Gostaria de começar esta opinião por vos dizer que as minhas expectativas sobre este livro eram um pouco antagónicas. Por um lado, tinha bem presente a opinião da Joca, que adora este livro, que o tem como um dos seus preferidos. Por outro lado, tinha a Cata, que não morre de amores por ele e que acha que ele deixou um pouco a desejar. Sigo a opinião delas há muito tempo e concordo com elas muitas vezes, então fiquei um pouco dividida!!!

Assim que o comecei a ler, atraída pela capa e por uma súbita vontade de estar na praia, percebi logo que ia ser um livro de leitura fácil. Mas fácil e de qualidade nem sempre são a mesma coisa. Sim, acabei por concordar com a Cata!

Achei a premissa do livro boa. Um rapaz e uma mulher praticamente desconhecidos, a atravessarem problemas diferentes e com alguma diferença de idade a separá-los e que acabam por ficarem sozinhos numa ilha deserta até poderia ser uma boa ideia. Mas seria uma boa ideia se a autora tivesse pegado mais pela questão da sobrevivência, assim dificuldades reais, de nos darem medo. Acontece que estes dois já começaram por fazer esta viagem debaixo de circunstâncias pouco prováveis (os pais dele resolveram levá-la com eles de férias para as Maldivas a fim de ela estudar com ele durante as férias e ele recuperar o tempo perdido, visto que perdeu muita matéria enquanto se recuperou de um cancro). Depois disso, mais improbabilidades fizeram parte desta história, desde aparecer toda e qualquer coisa na hora em que eles se viam aflitos ou de tudo contribuir para a sua sobrevivência (sobrevivência essa que durou bem mais tempo do que estaria à espera e do que considero razoável).

E depois temos o romance. E isto até poderia ser um spoiler se a própria sinopse do livro (uma das sinopses mais spoilerianas que já li) já não o deixasse claro. Quer dizer, isto seria previsível de qualquer das formas, embora o romance não seja uma coisa imediata nem muito sexual até determinada altura. E é aqui que surge outra das minhas implicâncias com este livro: a páginas tantas, fartei-me de ler diálogos como “Amo-te”, “Eu também de amo”. Se os casais o dizem a toda a hora? Sim. Se gosto de ler isso nos livros constantemente? Não. Era dispensável. E ainda há a diferença de idade entre o casal, o que é óbvio que ainda gera algum tabu nos dias de hoje, mas que a autora podia ter aproveitado para transmitir uma mensagem mais positiva a esse respeito. Os 13 anos que os separam nem sequer são das diferenças maiores que já vi!

E, para piorar a situação, o final era tão, mas tão previsível, que me fez lembrar as novelas, onde os finais se repetem bastante.

Depois disto, e mesmo tendo eu lido o livro muitíssimo depressa (como disse, a escrita é bastante acessível e diria mesmo que até algo pobre, embora me agrade o facto de ter capítulos pequenos e alternados entre as duas personagens), comecei a implicar com o livro no seu todo! Era o título que me parece demasiado simples, meio filme de sábado à tarde (e sairá em filme em “breve”, por acaso!), mais a capa que me parecia bonita anteriormente e agora me irrita… Nela, temos dois jovens numa ilha paradisíaca, aparentemente felizes e em plena lua de mel. Não é nada disso. Devia notar-se a diferença de idade entre eles, a desnutrição, o cansaço, em contraste com as cores da ilha. A capa só leva mesmo pontos pela barbatana de um tubarão que se vê ao longe. Aliás, a sinopse dá a entender que eles combateram um exército de tubarões e, bem, não é bem isso.

Se eu acho que devem dar uma oportunidade a este livro? Acho. Mesmo não tendo gostado, reconheço que agrada a muita gente (incluindo a muitas pessoas que sigo no Goodreads) e algo de positivo essas pessoas devem retirar desta leitura. Mas não contem com uma grande obra literária aqui, embora ache que vos possa ajudar a sair de uma ressaca literária, por exemplo!). É uma leitura descontraída, mas duvido que me vá marcar muito.

Para completar, descobri, ainda, que existe uma novela complementar a este livro, mas não sei se me apetece lê-la! Enfim, tudo isto para dizer que é possível não se gostar de um livro que agrada à maioria das pessoas, mas para tal opinião ser possível é preciso lê-lo. Só quem experimenta pode falar sobre isso. Lembrem-se disto!

[Opinião] “Ulisses” de Maria Alberta Menéres

maria alberta merenes - ulissesTentei ler este livro não no meu actual papel de adulta, mas pondo-me no lugar de uma criança, visto que só o li agora e não quando andava na escola primária ou afins! Às vezes acho que não li metade do que devia ter lido quando era miúda… há que compensar o tempo perdido!

Então, neste Ulisses de Maria Alberta Menéres temos uma espécie de resumo, ou seja, temos a verdadeira história de Ulisses contada em Odisseia de Homero numa adaptação para crianças. Admiro a coragem de um autor ao tentar passar para poucas páginas e para uma linguagem simples uma história de tal complexidade como a de Odisseia. Não sei se era capaz. Porém, ao resumir as aventuras de Ulisses perde-se muito da essência desta história (penso eu, que nunca li Odisseia!) e acaba por ser tudo “um dia Ulisses isto”, “Um dia Ulisses aquilo”, sem que temporalmente as coisas façam muito sentido. Mas, lá está, sendo uma adaptação para crianças tinha mesmo de ser assim!

Gostei bastante de ter uma visão geral das aventuras de Ulisses, da forma como era acarinhado em Ítaca (onde era rei), da inteligência demonstrada na guerra em Tróia (embora com anos de atraso!), dos seus encontros com os deuses, da forma como lidou com os pretendentes de Penélope, mas… bem, faltou ali qualquer coisa, mesmo para um livro infantil (infanto-juvenil?)! Contudo, gostei do facto de a autora escrever directamente para o leitor, como se nos estivesse a contar ela própria a história, o que não deixa de ser verdade!

Ainda assim, e até pelas ilustrações, é um livro que merece ser lido!

[Opinião] “Se isto é um homem” de Primo Levi

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Basta conhecer a biografia do autor para saber o desfecho deste livro: ele, judeu italiano, sobreviveu, de alguma forma, a vários meses em Auschwitz. É nesse “como” que assenta a base deste livro.

Este não é, desenganem-se, mais um livro sobre o holocausto. Isto como se algum livro sobre o tema pudesse algum dia descrever esse terror com exactidão. Muito pelo contrário. É um livro sem romances, sem floreados pelo meio, ou qualquer tentativa de atenuar um fardo pesado na história da Humanidade. É o relato pesado, sem dó nem piedade, de um químico que sobreviveu a esta atrocidade, que viu morrer pessoas sem conta, sem porquês.

Escrevi, há dias, no facebook, que este livro é um murro no estômago. E é mesmo. Mostra-nos como o homem perde a sua identidade quando se vê desprovido dos direitos mais básicos. Quando deixa de ter um nome e passa a ser um número. Quando não tem cabelo, barba, roupas, nada que o distinga dos demais. Quando vê a sua sobrevivência atribuída a factores como a sorte, a esperteza, o roubo. É o ser humano desprovido de dignidade.

Sobreviver nos campos de concentração implicava saber negociar, saber mentir, mostrar-se rentável, evitar sentir, ser criativo, pensar num dia de cada vez. As diferentes línguas dos prisioneiros era um entrave mas, mesmo assim, a amizade podia vir de onde menos se esperava. Para uns, como foi o caso de Levi, isso foi suficiente. Para outros, infelizmente, não.

Não se enganem com o número de páginas deste livro. Parece pequeno, mas é difícil de digerir. Sobretudo a recta final, onde a libertação de Primo Levi parece estar próxima e mesmo assim tanta desgraça acontece. O mundo ainda não se desculpou o suficiente com estes homens e mulheres…

“Não fariam também o mesmo? Se amanhã esperassem ser mortos com o vosso filho, não lhe davam hoje de comer?”

[Opinião] “Memória das minhas putas tristes” de Gabriel García Márquez

Gabriel Garcia Márquez - Memória das minhas putas tristesPara além do que já disse no post anterior sobre este autor, não posso deixar de salientar o incrível dom que ele tinha para dar títulos às suas obras. Não costumam ser lá muito pequenos, é um facto, mas dizem praticamente tudo sobre a história! Este, embora possa induzir em erro e levar-nos a pensar que se trata de um livro sobre prostituição (que não deixa de ser), sobre sexo (que não é lá muito) ou onde acontece algo de muito triste (que, em parte, acontece), é muito mais que isso.

Em Memória das minhas putas tristes temos um velho jornalista que ao completar 90 anos decide presentear-se com uma noite de sexo (amor?) com uma jovem virgem. Entra em contacto com uma velha amiga sua, que lhe “arranja” uma menina pobre de 14 anos disposta a sujeitar-se a isso. Acontece que na noite em que o acto se ia consumar a menina estava a dormir quando o velho chegou e ele, que em 90 anos nunca se relacionou com nenhuma mulher sem lhe pagar, decide não a acordar e antes contemplá-la.

Parece uma história de um velho babão e é quase isso. Mas também é bem mais que isso. É uma história de amor que se reflecte, entre outras coisas, nas crónicas que este jornalista escrevia no jornal para o qual trabalhava há imensos anos, nas atitudes algo juvenis que um velho apaixonado tem, e na força que o amor tem aos 9 ou aos 90.

Contudo, a meu ver, o Crónica de uma morte anunciada consegue ser melhor que este livro, na medida em que a sua leitura é mais fluída.

[Opinião] “Crónica de uma morte anunciada” de Gabriel García Márquez

Gabriel Garcia Márquez - Crónica de uma morte anunciadaNem sempre consigo ler autores que ganharam o Nobel da Literatura e, quando consigo, nem sempre concordo com essa atribuição. Mas no caso do Gabriel García Márquez é impossível não estar de acordo e querer ler mais coisas dele. Dele li, primeiramente, o Cem anos de solidão (péssima escolha para primeira leitura, devia ter sido a minha última deste autor) e já tinha lido uma vez tanto este, Crónica de uma morte anunciada, como o Memória das minhas putas tristes. Sábado passado, desafiada pela Raquel d’A toca do nunca, decidi participar numa maratona literária de 12h seguidas e estes dois pequeninos do G. G. Márquez foram dois dos meus escolhidos. E que livros…

G. G. Márquez conseguiu ter o título mais spoiler de sempre, o primeiro parágrafo mais spoiler da história e, mesmo assim, escrever um livro algo imprevisível. Nele, temos o relato das últimas horas de vida de Santiago Nasar, um jovem que está prestes a ser assassinado no dia da visita do bispo, algo que toda a gente comenta menos com ele! Isto porque Santiago foi agindo ao longo destas horas como se não tivesse medo, como se tudo estivesse bem, e ninguém queria acreditar que os seus assassinos (dois gémeos irmãos de uma recém casada não-virgem que acusa Santiago de a ter deflorado) o iam fazer de facto.

É uma história com vários avanços e recuos, ficamos sempre a pensar “é desta?”, e nunca sabemos ao certo quem deve ser considerada a maior vítima aqui (o Santiago que foi assassinado ou os que ficaram vivos e têm que conviver com o peso da sua morte?). O relato é feito vários anos após o crime e até nos fica a dúvida se será um relato fidedigno ou uma história contada e recontada. Esse é, aliás, mais um dos aspectos que fazem deste livro tão especial.

Uma leitura que recomendo, sem dúvida alguma!