[Opinião] “Se isto é um homem” de Primo Levi

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Basta conhecer a biografia do autor para saber o desfecho deste livro: ele, judeu italiano, sobreviveu, de alguma forma, a vários meses em Auschwitz. É nesse “como” que assenta a base deste livro.

Este não é, desenganem-se, mais um livro sobre o holocausto. Isto como se algum livro sobre o tema pudesse algum dia descrever esse terror com exactidão. Muito pelo contrário. É um livro sem romances, sem floreados pelo meio, ou qualquer tentativa de atenuar um fardo pesado na história da Humanidade. É o relato pesado, sem dó nem piedade, de um químico que sobreviveu a esta atrocidade, que viu morrer pessoas sem conta, sem porquês.

Escrevi, há dias, no facebook, que este livro é um murro no estômago. E é mesmo. Mostra-nos como o homem perde a sua identidade quando se vê desprovido dos direitos mais básicos. Quando deixa de ter um nome e passa a ser um número. Quando não tem cabelo, barba, roupas, nada que o distinga dos demais. Quando vê a sua sobrevivência atribuída a factores como a sorte, a esperteza, o roubo. É o ser humano desprovido de dignidade.

Sobreviver nos campos de concentração implicava saber negociar, saber mentir, mostrar-se rentável, evitar sentir, ser criativo, pensar num dia de cada vez. As diferentes línguas dos prisioneiros era um entrave mas, mesmo assim, a amizade podia vir de onde menos se esperava. Para uns, como foi o caso de Levi, isso foi suficiente. Para outros, infelizmente, não.

Não se enganem com o número de páginas deste livro. Parece pequeno, mas é difícil de digerir. Sobretudo a recta final, onde a libertação de Primo Levi parece estar próxima e mesmo assim tanta desgraça acontece. O mundo ainda não se desculpou o suficiente com estes homens e mulheres…

“Não fariam também o mesmo? Se amanhã esperassem ser mortos com o vosso filho, não lhe davam hoje de comer?”

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