[Opinião] “Os linhos da avó” de Rosa Lobato de Faria

15535867Desde a minha leitura de A trança de Inês (livro que tenho numa edição da Leya com uma belíssima capa) que sou apaixonada pela escrita da Rosa Lobato de Faria. Digamos que foi um amor à primeira vista! A juntar a esse facto, a Leya faz sempre belíssimas capas nos livros que publica da autora (vejam Alma trocadaOs três casamentos de Camila S.) e é impossível resistir-lhes.

Comprei recentemente o Alma trocada e Os linhos da avó e é sobre este último que vos quero falar hoje. Os linhos da avó é um livro de contos e até esta capa dá mesmo a sensação de estarmos perante um local onde avó e neta (digo neta e não neto precisamente por causa de um dos contos deste livro que lhe dá nome) podem partilhar experiências e beber chá. São 22 contos, com diferentes níveis de interesse e até mesmo de qualidade, mas que no seu conjunto formam um livro bem agradável de ser lido.

Confesso que alguns contos foram para mim altamente enternecedores e outros nem por isso. Gostei particularmente da ironia dos primeiros, do próprio conto Os linhos da avó e até do Um banco de jardim, uma espécie de reflexão sobre a morte. Em Mulher temos um constatar do poder de atracção que uma mulher pode ter sobre um homem e em O sétimo sentido a autora defende a intuição e as artes como sexto e sétimo sentidos.

Um ou outro contos foram algo maçadores, como Ao sabor do corpo, mas fazendo um balanço trata-se de um livro que merece as 3 estrelas sem grande esforço. Ainda assim, continuo a preferir o A trança de Inês que, além de poético na escrita, é poética quanto à própria história, algo que não aconteceu com todos estes contos. Seguir-se-à Alma trocada, um livro sobre a homossexualidade masculina, e veremos se esta minha paixão pela autora veio para ficar!

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[Opinião] “A paixão do jovem Werther” de Goethe

16008480A minha experiência com este livro não é nada de extraordinário. Já tinha ouvido falar dele algures, o seu título era-me familiar, e quando o vi na Feira do Livro do Porto por 2€ novo (num stand com imensa coisa a 2€ chamado Verso da História) trouxe-o sem pensar duas vezes, até porque as opiniões das pessoas que se encontraram comigo na altura se dividiam: uns adoraram, outros não acharam nada de especial. Em que grupo me iria eu inserir?

Este foi o primeiro livro que trouxe dessa Feira que decidi ler porque, vejam só, dado o seu reduzido tamanho (150 páginas) achava eu que o ia ler depressa. Desenganem-se, Goethe tem uma escrita algo complexa e, embora seja uma escrita cuja essência se percebe, exige uma leitura mais lenta e houve mesmo alguns parágrafos que li mais que uma vez. Mas esta capa, ó esta capa… estas cores com “paixão” no título faziam-me, pelo menos, pegar no livro, nem que fosse para ler poucas páginas de cada vez!

Em A paixão do jovem Werther acompanhamos as diversas cartas que Werther escreve ao seu amigo Wilhelm quando se encontra numa aldeia chamada Wahlheim. Nunca temos acesso às respostas de Wilhelm, mas compreendemos na mesma as inquietações de Werther, sobretudo quando se vê envolvido num trio amoroso. Werther apaixonou-se por Lotte, uma jovem que estava prometida a Albert (onze anos mais velho que ela), e vive dividido entre o ser correcto e respeitar as convenções sociais ou procurar viver esse amor. A história, em termos genéricos, não é muito mais que isto!

Por vezes, chega a ser angustiante acompanhar a própria angústia de Werther e compreendo que possa ser esse factor, aliado ao facto de a linguagem de Goethe ser pouco coloquial, que atrai os leitores que amaram esta obra. A mim, atraiu-me o facto de, contrariamente ao que acontece muitas vezes, termos um homem a passar por dilemas amorosos e conflitos internos, e não uma mulher. Ainda assim, a personagem Lotte é chata, uma mulher com a qual não me identifiquei e, embora estivesse presa a uma época em que o socialmente correcto vale mais que o coração, as suas intenções nem sempre são claras.

Como ponto negativo, aliás, como grande ponto negativo, aponto a forma como a história nos é contada, com uma linguagem nem sempre clara, por vezes desnecessariamente rebuscada e aponto ainda o facto de esta história ter mais a oferecer do que aquilo que o autor nos deu. No entanto, qualquer pessoa que já tenha passado por algo semelhante, mesmo que no século XX/XXI, vai identificar-se com parte da obra!

Por fim, e chamem-me exagerada se quiserem, acho que este livro escrito actualmente, com uma linguagem do século XXI e com alguns detalhes do nosso presente, seria um livro capaz de atrair mais gente. E era capaz de dar um YA interessante, quem sabe!!!

[Opinião] “Cão como nós” de Manuel Alegre

3195992Se as minhas contas não me falham, já li este livro pelo menos umas quatro vezes. Tinha a sensação que a última tinha sido numa viagem de comboio e, de facto, pode mesmo ter sido, porque dei-me ao trabalho de contar desta vez o tempo que demorei a lê-lo e, pasmem-se, demorei 26 minutos!

Cão como nós é um livro com pouco mais que 100 páginas (mas metade delas são em branco, praticamente) e é daquelas recomendações que eu faço sempre que me pedem um livro pequenino ou sempre que me pedem para indicar um livro para quem não tem o hábito de ler. Afinal, a sua pequena dimensão aliada a um tema que agrada a tanta gente são motivos mais que suficientes para cativar qualquer um.

Não há propriamente neste livro uma história que eu vos possa resumir. Cão como nós é uma espécie de desabafo do seu autor acerca de um cão que viveu com a sua família durante muitos anos, o Kurika, e um relatar aleatório de algumas peripécias do Kurika e do seu (mau) feitio. Todos os cães o têm, não é mesmo?

O que me apaixona neste livro sempre que o leio é a forma como Manuel Alegre (sim, o político… que também é escritor, e dos bons!) atribui ao seu cão características tão humanas, fazendo dele um de nós (ou de nós um deles, daí o título), o que vem contrariar um pouco aquela ideia de que “cão é cão”.

Este é um dos meus livros preferidos pela sua simplicidade e, embora lhe tenha descido a classificação no Goodreads de 5 para 4 estrelas, não posso deixar de dizer que estão a perder um pequeno grande livro!

[Opinião] “Um crime capital” de Francisco José Viegas

Um crime capital - Francisco José ViegasJá não me lembro bem como este livro me veio parar às mãos. Talvez o tenha encontrado em algum alfarrabista e me tenha chamado a atenção pelo nome do autor e pelo preço (vinha 1€ escrito a lápis na primeira folha). Ele foi ficando cá por casa, esquecido, provavelmente por esta edição passar bem despercebida! Mas eis que algo me fez lembrar da sua existência.

Se me acompanham no instagram, devem ter visto que visitei recentemente a Feira do Livro do Porto, e devem ter visto também lá que fui assistir a um debate onde Francisco José Viegas era o moderador. O nome deste autor no programa da Feira avivou a minha memória e culpei-me a mim própria por ainda não ter lido nada de um autor português relativamente conhecido, mais um na minha enorme lista de falhas com os autores nacionais… Mas antes tarde do que nunca!

Um crime capital não, não remete para Lisboa. Remete para o Porto enquanto Capital Europeia da Cultura em 2001. Em suma, neste livro várias pessoas são assassinadas e o chefe Jaime Ramos (pelo que entendi, personagem recorrente em vários livros do autor) e o inspector Isaltino de Jesus vão tentando descobrir qual o elo comum entre um casal de amantes, um informático e uma misteriosa rapariga. Quem será o assassino? A base dos policiais parece quase sempre a mesma, mas não é!

Quanto à minha opinião propriamente dita, tenho a dizer-vos que este livro foi uma agradável surpresa. Não é o melhor policial que já li (minha queria Agatha Christie!), mas Francisco José Viegas escreve bem (parece estranho dizer isto de um escritor, mas a verdade é que alguns que envergam esse título escrevem muito mal!), a história faz sentido e gostei do facto de ser um livro que se passa no Porto, que “espreme” a cidade e os seus locais, e que não se fica por Lisboa. Contudo, por vezes as referências a ruas, restaurantes e monumentos do Porto parecem um pouco forçadas, mas este aspecto tem uma atenuante: o livro foi, originalmente, publicado em formato de folhetim no Jornal de Notícias. A ligação entre o JN e o Porto já é vossa conhecida, por isso não admira que para agradar à maioria dos leitores deste jornal se tenha usado e abusado das referências a locais emblemáticos do Porto, bem como a outras localidades que lhe são próximas (até a minha Trofa é referida!).

Como aspecto negativo, e um aspecto que fez toda a diferença na hora de atribuir uma classificação a este livro (3.5* e não mais), saliento o facto de, por vezes, confundir algumas personagens e as ligações entre elas, sobretudo por causa dos seus nomes.

Enfim, tenho pena que este autor não seja mais conhecido pelo seu papel enquanto escritor e não por outros papéis que assume (como jornalista ou político), e lamento que não seja lido por mais pessoas porque, efectivamente, escreve bem e de forma simples.