[Opinião] “As dez figuras negras” de Agatha Christie

6337295“Silvéria, tens de ler As dez figuras negras, é o melhor livro da Agatha Christie!”. Tanto ouvi isto ao longo dos últimos anos que incluí este livro na minha lista de 15 livros para ler em 2015 e já íamos em Outubro e eu sem pegar nele!! Depois da má experiência que tive com o livro Em parte incerta (falaremos dele um dia destes) precisava de algo que fosse seguramente melhor e a rainha do crime nunca desilude!

O livro As dez figuras negras fala-nos de dez pessoas que foram misteriosamente convidadas para passarem uma temporada na Ilha do Negro, sem saberem muito bem porquê. Por diversos motivos, todas aceitaram o convite e chegadas à ilha viram o seu destino ser ditado por uma espécie de canção de embalar, com o mesmo título deste livro, e foram sendo assassinadas uma por uma de acordo com os versos da canção (isto não é spoiler, vem na própria sinopse do livro, e já se sabe que livros da AC têm assassinatos!). Aos poucos vão chegando à conclusão que o assassino tem de estar entre eles e não só as personagens como nós, meros leitores, damos por nós a juntar as várias peças do puzzle a tentar encontrar o assassino. Confesso-vos que não é nada fácil e só não dei cinco estrelas no Goodreads a este livro porque apesar de o/a assassino/a ser uma total surpresa, para que aquela pessoa o pudesse ser foram precisas algumas coincidências. Este livro só peca nesse pequeníssimo pormenor e não há como não adorar esta autora!

Este livro, porém, não tem como personagem o famoso detective Hercule Poirot, presente em tantas obras da AC, mas mesmo assim parece-me quase imperdoável que ainda não o tenham lido, sobretudo se gostam de policiais! É super viciante. Para terem uma ideia, li as primeiras páginas num dia, sem ficar muito presa ao livro, mas quando peguei nele no dia seguinte não descansei enquanto não o acabei, já a noite ia longa e eu ali ansiosa por lhe conhecer o final. Não é uma leitura que aconselhe para um período nocturno, digamos que vos vai deixar algo agitados!

Ainda assim, mesmo que vos tire algumas horas de sono (por um bom motivo!), não deixa de ser curioso que um policial dê que pensar, nomeadamente sobre o conceito de justiça e sobre quem tem o direito de julgar. Enfim, mais uma boa leitura que fiz este ano!

Por fim, eis o famoso poema/canção de embalar/lengalenga… (o que lhe queiram chamar!):

“Dez meninos negros foram jantar;
Um engasgou-se e sobraram nove.
Nove meninos negros deitaram-se tarde;
Um dormiu de mais e sobraram oito.
Oito meninos negros foram viajar pelo Devon;
Um disse que por lá ficava e sobraram sete.
Sete meninos negros foram cortar lenha:
Um cortou-se em dois e sobraram seis.
Seis meninos negros brincaram com uma colmeia;
Um abelhão ferrou um e sobraram cinco.
Cinco meninos negros seguiram a advocacia;
Um foi para o Supremo Tribunal e sobraram quatro.
Quatro meninos negros foram para o mar;
Um caiu no anzol e sobraram três.
Três meninos negros andavam pelo jardim zoológico;
Um levou um chi-coração de um urso enorme e sobraram dois.
Dois meninos negros sentaram-se ao sol;
Um deles ficou assado e sobrou um.
Um menino negro ficou completamente só;
Foi e enforcou-se e não sobrou nenhum.”

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[Opinião] “Os aromas do amor” de Dorothy Koomson

22079546Em tempos, já fui muito, mas mesmo muito fã dos livros de Dorothy Koomson. Todos os livros dela, sobretudo os relacionados com crianças (Pedaços de ternura, A filha da minha melhor amiga ou Bons sonhos, meu amor) são bastante enternecedores. Mas depois a autora resolveu escrever algo mais relacionado com crimes, com mistério, e perdeu esse encanto. Se se lembram da minha opinião sobre A praia das pétalas de rosa aqui no blog no início deste ano talvez se recordem que fiquei um pouco desiludida com esse livro, apesar de muitos leitores que eu acompanho o terem adorado. Por isso, foi com algum receio que parti para Os aromas do amor, também ele com uma morte por resolver (o que não é spoiler, está na sinopse). Mas os livros de um autor são como uma série televisiva: depois de começar a acompanhá-los queremos sempre continuar a segui-los, mesmo que com as expectativas lá em baixo!

Para começar, não posso negar que a capa deste livro, como é hábito nos livros desta autora lançados em Portugal, é bastante bonita. E mesmo a contracapa é visualmente muito agradável com umas ervas aromáticas e afins. O título também parece algo romântico. A sinopse remete bastante para os alimentos e a arte de cozinhar… e nesse aspecto senti-me um pouco enganada.

Este livro refere, é certo, a comida, a arte de combinar ingredientes e aquilo que eles podem fazer por nós. Mas essa é uma parte bastante reduzida da história e, por isso, quando a sinopse diz “Saffron decide terminar Os aromas do amor, o livro de receitas que Joel tinha começado a escrever antes da sua trágica morte”, não posso achar lá muito bem que isto conste da sinopse, pelo menos não com o destaque que tem, porque o livro não se centra nisso.

Mas falando das personagens… temos uma Saffron cujo marido (Joel) faleceu há 18 meses e cujo assassino se desconhece, os dois filhos de ambos (Phoebe, de 14 anos, e Zane, mais novo), a tia Betty, o amigo Fynn e mais algumas personagens pouco relevantes como os pais de Joel ou o professor de Phoebe (a vida dela sofreu, aliás, um forte golpe durante este livro). Saffron é a personagem principal e a mais irritante, talvez porque achei as suas acções pouco plausíveis. Não que não fossem plausíveis pontual e individualmente, mas todas na mesma pessoa parecem algo improváveis!

A personagem de que mais gostei foi a tia Betty, embora seja pouco desenvolvida e até quase irrelevante na história. Phoebe é, notoriamente, o reflexo da educação que tem e Zane é um miúdo que só aparece aqui para reforçar o carácter da mãe. A amizade de Joel com Fynn é pouco explorada, fazia falta algumas analepses para podermos entender esta relação, e ainda menos se percebe a amizade de Fynn com Saffron, sobretudo depois da morte do marido desta.

Enfim, um livro da autora que não recomendo e acho sinceramente que quem começar por este não vai querer ler mais nada dela. Para terem uma ideia, tinha começado a lê-lo em Julho e só agora, três meses depois, ganhei coragem para terminá-lo. Penso que isto diz tudo!

[Opinião] “Jesus Cristo bebia cerveja” de Afonso Cruz

22368918Depois de ler o Para onde vão os guarda-chuvas era impossível não querer ler mais nada de Afonso Cruz. Claro que podia ter esperado mais tempo entre uma leitura e outra (nem uma semana passou!), mas não resisti!!!

Tinham-me avisado que este Jesus Cristo bebia cerveja não era tão genial como o primeiro livro que eu tinha lido do autor. Não me mentiram. Embora o forte aqui também tenha sido as personagens, esta é uma história mais rebuscada, algo confusa, embora irónica em alguns aspectos. A escrita do autor continua a ser linda, continuamos a ter algumas frases simples e certeiras, mas a magia de Para onde vão os guarda-chuvas não a encontrei aqui.

Embora esteja um pouco farta de histórias que se passam no Alentejo e que, de certa forma, o ridicularizam, este livro foca-se noutros pormenores que nem sempre encontramos, nomeadamente em pessoas pouco típicas nesta zona do país. Ainda assim, a referência à religião é uma constante, algo que já tinha acontecido em Para onde vão os guarda-chuvas (na verdade é ao contrário, porque este livro é de 2012 e o dos guarda-chuvas de 2014), basta atentar neste título e nesta capa que causam urticária a qualquer católico convicto!

No que diz respeito às personagens, achei bonito o facto de Rosa querer levar a avó a Jerusalém, mas Rosa teve uma série de outras acções que reprovei, não só em relação aos homens da sua vida, como no que diz respeito ao final que a sua relação com a avó aparentemente tão adorada teve. Ainda assim, finais que desagradam o leitor são o ponto forte de Afonso Cruz, por isso começo a habituar-me!

No entanto, reconheço o mérito deste autor no que envolve a construção das personagens. Não é, à primeira vista, fácil juntar um pastor, um professor, um padre, uma inglesa rica… mas Afonso Cruz consegue tudo, este homem pode tudo!!

Talvez não seja justo classificar este livro com três estrelas, mas basta ler algo mais profundo do autor para perceber que este livro é de qualidade inferior. É a minha opinião, e sei que muita gente gostou mais dele do que eu, mas provavelmente porque ainda não experimentaram outras obras dele. Mas é uma história que não me marcou e, embora a tenha lido em menos de 24h, sinto-me até no “direito” de exigir mais deste escritor 😉

[Opinião] “Alma trocada” de Rosa Lobato de Faria

18214136Este é o terceiro livro desta autora que leio em 2015, isto porque desde que li A trança de Inês que não consigo resistir a qualquer livro de Rosa Lobato de Faria que me passe pela frente. Este era, provavelmente, dos três livros dela que tenho cá em casa aquele que despertava mais a minha curiosidade, talvez por ser “vendido” como um romance homossexual (no masculino), o que não é muito comum.

Acontece que a homossexualidade, apesar de algo evidente neste livro, não me pareceu, na minha modesta opinião, o ponto que merecia ser mais destacado na sinopse deste livro, até porque, por vezes, me esqueci mesmo que o Téo, personagem principal, era gay (só me centrei nisso mesmo no início do livro, quando Téo ainda está de casamento marcado com uma rapariga com a qual não tem a mínima ligação). Trata-se de uma história de descoberta do eu, independentemente da sexualidade, uma história sobre relações familiares e de amizade, ciúme, inveja, angústia e desejo. Quantas e quantas vezes nos perguntamos “quem sou eu?” e não pensamos que a nossa alma só pode ter sido trocada?

Ainda assim, a minha personagem favorita nem foi o Téo na sua descoberta sobre o amor, mas sim a sua avó Jacinta, que o conhece tão bem sem serem precisas palavras. E a própria descrição da quinta da avó Jacinta aviva qualquer memória olfativa. Isto para não falar de outras personagens alentejanas que são assim uma delícia, bem ao estilo que Rosa Lobato de Faria habituou os seus leitores.

Além disso, este livro transmite uma ideia que eu defendo desde sempre: a família nem sempre é aquela com quem temos laços de sangue, mas sim aquela com quem escolhemos ter laços afectivos, bem mais fortes e duradouros.

Apesar de não ser brilhante, este é um livro leve, quase uma lufada de ar fresco. Palmas para a autora, que escrevia tão bem que lê-la nunca é uma maçada!

[Opinião] “Olhos de vidro” de Carina Rosa

Carina Rosa - Olhos de vidroEm diferentes conversas com a Silvana, autora do blog Por detrás das palavras, surgiu, por diversas vezes, o tema “autores portugueses”, nomeadamente os que mais vão de encontro aos nossos gostos. Penso que não estou a cometer nenhuma inconfidência ao afirmar que a Carina Rosa é uma das autoras preferidas da Silvana, e talvez por isso eu queira gostar igualmente da autora.

Foi com essa expectativa que parti, hoje, nesta tarde chuvosa, para a leitura de um dos  seus contos que a Carina disponibilizou gratuitamente no Smashwords. Falo-vos de Olhos de vidro, mas a Carina também tem lá disponível outro conto intitulado A rapariga do lago.

Em Olhos de vidro, acompanhamos a história de Amanda, uma jovem actriz que nem sempre tem muita clara a distinção entre a sua vida real e os papeis que desempenha. Amanda, detentora de uns olhos claros (“olhos de vidro”) e de uma aura um tanto ou quanto perturbadora, deixa que essa confusão afecte a sua vida e a vida de várias pessoas à sua volta e tenho pena que este seja apenas um conto, e não um livro, porque a Amanda pareceu-me ser uma personagem digna de um enredo mais elaborado. Fiquei, sinceramente, com vontade de ler mais. É um conto trágico, com uma forte vertente psicológica, bastante intenso e perturbador como a personagem principal.

O final deste conto é qualquer coisa de nos fazer perder a respiração e gostei bastante deste registo da autora, que sei que também escreve romances românticos, algo que nem sempre é o meu género! Mesmo assim, vou dar uma oportunidade a A rapariga do lago e vocês também deviam dar!