[Opinião] “Um presente inesperado” de Carina Rosa

27406846Escolhi o Um presente inesperado como uma das minhas leituras para a Maratona Especial de Natal cujos desafios consistiam em, por exemplo, ler obras de autores nacionais e ler e-books, categorias em que este conto se insere. E que dizer sobre este conto senão que o próprio narrador/protagonista é ele mesmo inesperado?

Felizmente, e mesmo tendo espreitado algumas opiniões sobre este conto antes, não apanhei nenhum spoiler sobre o nosso narrador, o que me fez esboçar um sorriso ao perceber sobre quem estava a ler. É um conto deveras fofo, amoroso mesmo, algo inesperado. Diria até que pode ser lido às crianças a partir de uma certa idade/maturidade, porque de facto transmite algumas mensagens sobre esta época natalícia e o que é ou devia ser o Natal. Mesmo o nosso protagonista tendo alguns momentos em que só pensa em si próprio, tudo o que vem a seguir faz-nos perdoá-lo!

Da mesma autora, Carina Rosa, já tinha lido o conto Olhos de vidro (ambos os contos estão disponíveis gratuitamente no Smashwords). São contos bastante diferentes, com auras diferentes, e só gostei mais do Olhos de vidro (a quem dei 4* no Goodreads e não 3,5* como vou dar a este) por ter sido mais desenvolvido em algumas partes. Mesmo este Um presente inesperado sendo um conto bastante curto, o final, a meu ver, sairia a ganhar se tivesse mais alguns parágrafos.

No entanto, acho impossível não se esboçar um sorriso ao ler este conto, todo ele adorável e bem escrito!

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[Opinião] “Noites brancas” de Fiódor Dostoiévski

13500004Este é mais um dos muitos livros (dezenas, para ser um pouco mais precisa) de pequena dimensão que tenho na minha estante. Vou coleccionando-os porque considero o seu preço acessível e o seu formato muitas vezes engraçado, mas depois nem sempre os leio à mesma velocidade com que os compro!!! Uma vergonha!

Noites brancas (1848) é um dos vários contos publicados por Fiódor Dostoiévski, o conhecido autor de Crime e Castigo ou Os irmãos Karamazov, livros tão temidos pelo seu assustador tamanho. O título do conto remete para um fenómeno que ocorre na Europa que consiste, em termos bastante reduzidos, em noites mais claras, e é numa dessas noites que um homem (o Sonhador) e uma mulher (Nastenka) se conhecem. Ambos solitários, partilham as suas histórias um com o outro nas noites que se seguem, formando-se aqui uma amizade típica do século XIX, daquelas com diálogos dramáticos e dúvidas existenciais.

Esta obra mostra uma veia romântica que não sei se esperava do autor, mas é sempre bom sermos apanhados de surpresa e descobrirmos outras facetas dos autores que admiramos.

Não há muito que eu possa dizer sobre esta história tão pequena sem a revelar por completo (não leiam resumos dela em páginas como a Wikipedia, por favor!, porque vos contam tudo), apenas que se pode resumir na sua última frase: “Meu Deus! um instante de completa felicidade não basta para uma vida inteira?”.

[Opinião] “O médico e o monstro” de Robert Louis Stevenson

8737494Em primeiro lugar, vou deixar um recado direccionado às pessoas que têm esta edição em particular: não desistam da leitura deste livro por causa da tradução! Embora no inicio a coisa até não vá correndo muito mal, a verdade é que a páginas tantas vemos “trem” em vez de “comboio” ou os sinais de exclamação utilizados em espanhol! Ok que este livro saiu gratuitamente com um jornal, mas…

Em O médico e o monstro, ou Dr. Jekyll and Mr. Hyde como é conhecido, temos a história do médico Jekyll, um homem respeitado e inteligente que mantém uma invulgar relação com Hyde, um homem baixo, de aparência estranha, de ar sinistro. Utterson, advogado e amigo de Jekyll, tenta alertá-lo para o facto de Hyde ser de carácter duvidoso e de já ter sido acusado de algumas façanhas impróprias, mas Jekyll parece não querer saber e deixou, inclusive, os seus bens a Hyde em testamento.

Toda esta história gira em torno das peças que Utterson tenta juntar para que esta estranha amizade entre o médico e Hyde faça sentido e confesso que a resolução desse mistério, que está presente sobretudo no último capítulo deste pequeno livro, me deixou boquiaberta. Acho que para isso contribuiu o facto de não ter lido sinopses (não leiam, algumas revelam coisas que não deviam neste caso) nem ter visto nenhum filme baseado nesta obra.

Este livro é considerado um dos clássicos do terror e percebo bem porquê: é todo um mistério em volta da amizade entre duas pessoas que toma proporções algo assustadoras e, embora talvez não muito reais, que fazem sentido dentro deste tipo de ficção. Nem sempre é fácil escrever terror sem se cair no ridículo e no inverosímil, mas aqui temos todo um pensamento que é preciso desenvolver à parte da história que desafia o leitor e que não o deixa descansar enquanto não chegar ao final.

Este é mais um livro bom para ler em um dia, pois nem duas horas demorei a lê-lo (e reli algumas partes para ter a certeza que não estava a delirar!), e não esperem pelo próximo mês do terror para o lerem! Vão por mim 🙂

[Opinião] “Confundir a cidade com o mar” de Richard Zimler

12368797Desde que estive presente num evento da Feira do Livro do Porto 2015 com o Richard Zimler que simpatizei logo com ele e é certo e sabido que ter empatia com um autor é meio caminho andado para se querer lê-lo. Poucos dias depois disso já estava eu a comprar O último cabalista de Lisboa (que ainda não li) e este livro de contos, Confundir a cidade com o mar, que tem esta capa lindíssima. Decidi começar por este último por ser uma colectânea de pequenas histórias, mas não sei se fiz bem!

A verdade é que alguns destes contos (como Aprender a amar ou Ladrões de memórias) até foram uma leitura relativamente agradável, sem nada que me marcasse particularmente, mas talvez tenham sido mais os contos que foram algo penosos de ler e até de compreender, pois nem sempre entendi a sua pertinência (foi o caso de A um pássaro ou No mato grosso). Embora aqui o autor atravesse vários países, culturas e religiões, a verdade é que tirando o conto Ernst (mais ligado às artes, uma área que me interessa bastante), mais nenhum outro me tocou ou achei particularmente cativante.

A escrita do autor é boa, disso não há dúvidas. Mas fiquei com a sensação que ou o Richard Zimler não sabe tornar claro para o leitor as suas sensibilidades, ou eu, leitora, é que não as soube captar. Talvez seja ambas as situações. Acho que preciso de um livro com uma história única e mais desenvolvida para lhe fazer uma correcta avaliação!

[Opinião] “A boneca de Kokoschka

9658280Depois de Para onde vão os guarda chuvas (que foi amor à primeira vista) e de Jesus Cristo bebia cerveja (que já não foi tanto amor assim), não resisti a ler mais um livro de Afonso Cruz neste mês de Outubro. Desta vez, o escolhido foi A boneca de Kokoschka, um livro que pecou sobretudo pelo título!

Li este livro por sugestão da Roberta (Blogue Flames), que me sugeriu, inclusive, que não lesse a sinopse antes de ler o livro. Percebo agora o que a levou a fazer tal sugestão, e eu acrescentaria, se pudesse (!), que não deviam ler este título também. A boneca não é propriamente o tema central deste livro, muito pelo contrário. E acho que foi isso que me desiludiu, porque achei a ideia do que ela representava bastante original. Aliás, a primeira página do livro diz praticamente o mesmo que a sinopse e dá a entender algo totalmente diferente do que na verdade nos espera.

Esta é uma história de coincidências, de personagens que se cruzam quase miraculosamente, mas não deixo de adorar o Afonso Cruz assim mesmo. Não é, de todo, um mau livro, mas depois da minha paixão por Para onde vão os guarda-chuvas esperava mais e melhor (embora perceba que são livros diferentes, claro!). Aqui, Afonso Cruz tem igualmente uma visão dura e crua dos acontecimentos, explora a realidade com uma precisão quase cirúrgica, mas falta-lhe ali algo mais poético e sentimental que me faça ficar rendida à história.

A título de curiosidade, partilho com vocês o tempo que demorei a ler este livro. Pela primeira vez, contabilizei o tempo que uma leitura me levou. Neste caso, e tendo em conta que algumas destas páginas contêm imagens (que eu observei atentamente), a leitura demorou-me 3h15! Parece-me um bom feito! É este o tempo que demoram a tecer a vossa opinião sobre este livro e a virem cá dar a vossa opinião!

[Opinião] “O menino de Cabul” de Khaled Hosseini

18487904O menino de Cabul faz parte da minha lista de 15 livros para ler em 2015 e já há muito que o queria ler. Em Setembro, tive a oportunidade de o comprar a um preço razoável e em Outubro parti para a sua leitura com as expectativas bem altas porque só tinha ouvido maravilhas sobre ele.

Este livro começa por relatar-nos a amizade de Amir (filho do patrão) e Hassan (o filho do criado), dois meninos afegãos que, apesar da diferente condição social, tinham tido a mesma ama de leite. A amizade entre os dois não tinha em conta contas bancárias nem estatutos sociais e os dois meninos  divertiam-se a lançar papagaios, mesmo que Hassan tivesse que preparar as roupas ou a comida de Amir enquanto este ainda dormia. Contudo, um dia algo vem pôr à prova a amizade destes dois, a lealdade de ambos, e para agravar esta situação a família de Amir ainda se vê obrigada a fugir do Afeganistão após a invasão soviética, quando a amizade deles atravessava uma fase bastante conturbada. Esta é uma história de redenção, de procura da paz interior e até de aceitação. E acompanha algumas décadas da vida destes dois em que eles têm mais coisas a ligá-los do que imaginavam, mesmo que à distância.

A verdade é que este livro despertou em mim sensações que nunca nenhum outro livro tinha despertado. Talvez o facto de se centrar, inicialmente, em duas crianças tenha mexido mais comigo. Sei que tive que parar várias vezes de ler este livro, tendo mesmo chegado a ficar enjoada e enojada a determinada altura e sinto-me quase obrigada a alertar-vos para o facto de esta não ser uma obra para qualquer pessoa. É preciso ter estômago. E é precisamente por ter mexido tanto comigo que não poderia deixar de lhe dar 5 estrelas no Goodreads!

O facto de o autor ser afegão também contribui, a meu ver, para o sucesso deste livro. A narrativa não se centra nos conflitos por que este país passou, mas sim no seu povo, nos seus hábitos, costumes, tradições. É um retrato algo cruel dos afegãos, mas é uma realidade que precisamos observar e tentar compreender. É uma história com algumas coincidências, mas não em demasia. Enfim, tornou-se um dos livros da minha vida até por tudo aquilo que ele representa!

“(…) no Afeganistão há muitas crianças, mas pouca infância.” (p.286)