[Opinião] “Um presente inesperado” de Carina Rosa

27406846Escolhi o Um presente inesperado como uma das minhas leituras para a Maratona Especial de Natal cujos desafios consistiam em, por exemplo, ler obras de autores nacionais e ler e-books, categorias em que este conto se insere. E que dizer sobre este conto senão que o próprio narrador/protagonista é ele mesmo inesperado?

Felizmente, e mesmo tendo espreitado algumas opiniões sobre este conto antes, não apanhei nenhum spoiler sobre o nosso narrador, o que me fez esboçar um sorriso ao perceber sobre quem estava a ler. É um conto deveras fofo, amoroso mesmo, algo inesperado. Diria até que pode ser lido às crianças a partir de uma certa idade/maturidade, porque de facto transmite algumas mensagens sobre esta época natalícia e o que é ou devia ser o Natal. Mesmo o nosso protagonista tendo alguns momentos em que só pensa em si próprio, tudo o que vem a seguir faz-nos perdoá-lo!

Da mesma autora, Carina Rosa, já tinha lido o conto Olhos de vidro (ambos os contos estão disponíveis gratuitamente no Smashwords). São contos bastante diferentes, com auras diferentes, e só gostei mais do Olhos de vidro (a quem dei 4* no Goodreads e não 3,5* como vou dar a este) por ter sido mais desenvolvido em algumas partes. Mesmo este Um presente inesperado sendo um conto bastante curto, o final, a meu ver, sairia a ganhar se tivesse mais alguns parágrafos.

No entanto, acho impossível não se esboçar um sorriso ao ler este conto, todo ele adorável e bem escrito!

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[Opinião] “A boneca de Kokoschka

9658280Depois de Para onde vão os guarda chuvas (que foi amor à primeira vista) e de Jesus Cristo bebia cerveja (que já não foi tanto amor assim), não resisti a ler mais um livro de Afonso Cruz neste mês de Outubro. Desta vez, o escolhido foi A boneca de Kokoschka, um livro que pecou sobretudo pelo título!

Li este livro por sugestão da Roberta (Blogue Flames), que me sugeriu, inclusive, que não lesse a sinopse antes de ler o livro. Percebo agora o que a levou a fazer tal sugestão, e eu acrescentaria, se pudesse (!), que não deviam ler este título também. A boneca não é propriamente o tema central deste livro, muito pelo contrário. E acho que foi isso que me desiludiu, porque achei a ideia do que ela representava bastante original. Aliás, a primeira página do livro diz praticamente o mesmo que a sinopse e dá a entender algo totalmente diferente do que na verdade nos espera.

Esta é uma história de coincidências, de personagens que se cruzam quase miraculosamente, mas não deixo de adorar o Afonso Cruz assim mesmo. Não é, de todo, um mau livro, mas depois da minha paixão por Para onde vão os guarda-chuvas esperava mais e melhor (embora perceba que são livros diferentes, claro!). Aqui, Afonso Cruz tem igualmente uma visão dura e crua dos acontecimentos, explora a realidade com uma precisão quase cirúrgica, mas falta-lhe ali algo mais poético e sentimental que me faça ficar rendida à história.

A título de curiosidade, partilho com vocês o tempo que demorei a ler este livro. Pela primeira vez, contabilizei o tempo que uma leitura me levou. Neste caso, e tendo em conta que algumas destas páginas contêm imagens (que eu observei atentamente), a leitura demorou-me 3h15! Parece-me um bom feito! É este o tempo que demoram a tecer a vossa opinião sobre este livro e a virem cá dar a vossa opinião!

[Opinião] “Um crime capital” de Francisco José Viegas

Um crime capital - Francisco José ViegasJá não me lembro bem como este livro me veio parar às mãos. Talvez o tenha encontrado em algum alfarrabista e me tenha chamado a atenção pelo nome do autor e pelo preço (vinha 1€ escrito a lápis na primeira folha). Ele foi ficando cá por casa, esquecido, provavelmente por esta edição passar bem despercebida! Mas eis que algo me fez lembrar da sua existência.

Se me acompanham no instagram, devem ter visto que visitei recentemente a Feira do Livro do Porto, e devem ter visto também lá que fui assistir a um debate onde Francisco José Viegas era o moderador. O nome deste autor no programa da Feira avivou a minha memória e culpei-me a mim própria por ainda não ter lido nada de um autor português relativamente conhecido, mais um na minha enorme lista de falhas com os autores nacionais… Mas antes tarde do que nunca!

Um crime capital não, não remete para Lisboa. Remete para o Porto enquanto Capital Europeia da Cultura em 2001. Em suma, neste livro várias pessoas são assassinadas e o chefe Jaime Ramos (pelo que entendi, personagem recorrente em vários livros do autor) e o inspector Isaltino de Jesus vão tentando descobrir qual o elo comum entre um casal de amantes, um informático e uma misteriosa rapariga. Quem será o assassino? A base dos policiais parece quase sempre a mesma, mas não é!

Quanto à minha opinião propriamente dita, tenho a dizer-vos que este livro foi uma agradável surpresa. Não é o melhor policial que já li (minha queria Agatha Christie!), mas Francisco José Viegas escreve bem (parece estranho dizer isto de um escritor, mas a verdade é que alguns que envergam esse título escrevem muito mal!), a história faz sentido e gostei do facto de ser um livro que se passa no Porto, que “espreme” a cidade e os seus locais, e que não se fica por Lisboa. Contudo, por vezes as referências a ruas, restaurantes e monumentos do Porto parecem um pouco forçadas, mas este aspecto tem uma atenuante: o livro foi, originalmente, publicado em formato de folhetim no Jornal de Notícias. A ligação entre o JN e o Porto já é vossa conhecida, por isso não admira que para agradar à maioria dos leitores deste jornal se tenha usado e abusado das referências a locais emblemáticos do Porto, bem como a outras localidades que lhe são próximas (até a minha Trofa é referida!).

Como aspecto negativo, e um aspecto que fez toda a diferença na hora de atribuir uma classificação a este livro (3.5* e não mais), saliento o facto de, por vezes, confundir algumas personagens e as ligações entre elas, sobretudo por causa dos seus nomes.

Enfim, tenho pena que este autor não seja mais conhecido pelo seu papel enquanto escritor e não por outros papéis que assume (como jornalista ou político), e lamento que não seja lido por mais pessoas porque, efectivamente, escreve bem e de forma simples.

[Opinião] “Boneca de luxo” de Truman Capote

truman capote - boneca de luxo

Vou admitir: peguei neste livro por ser pequeno! Há sempre um motivo, mais ou menos lógico, para me fazer pegar num livro e desta vez foi mesmo porque queria um livro que não demorasse muito a ser lido. Foi um risco, porque nem sempre os livros pequenos se lêem rápido (assim como os há de grande dimensão e fácil leitura), mas resolvi tentar.

Em primeiro lugar, e embora perceba o título que lhe foi dado em Portugal, acho que prefiro o título original: Breakfast at Tiffany’s. Sim, é mesmo a Tiffany’s que vende jóias em Nova Iorque! Tudo isto porque a nossa personagem principal, Holly, gostava de cometer a excentricidade de ir lá tomar o seu pequeno almoço.

Em Boneca de luxo, história contada pelo vizinho de Holly, temos uma Holly tresloucada, ingénua, inconsequente, sedutora, deslumbrante, espirituosa, vulnerável e cuja conduta, por vezes, pode roçar o reprovável. Sim, é isto tudo! E é tudo isto que torna a Holly uma personagem tão marcante na literatura do século XX. Não posso dizer que haja algum acontecimento particularmente marcante em todo este livro, porque o marco é mesmo a Holly. E já escrevi este nome tantas vezes, mas a verdade é que é mesmo ela, um “animal selvagem” constantemente “em viagem”, com o seu particular jeito para se meter em enrascadas e que levanta a discussão sobre a definição de “prostituição”, que dá brilho a este livro.

Este livro, aliás, é a prova de que não é preciso escrever-se um calhamaço para se ter um bom livro, que marque e que diga muito. As personagens são bem construídas, a escrita é limpa e sem floreados. Bem como eu gosto. É fácil gostar de Capote assim!

Talvez conheçam esta história, que data de 1958, através do filme que foi lançado posteriormente (1961). Ainda não vi o filme porque já me avisaram que é ligeiramente diferente do livro e conhecem aquele medo meio infundado que todos nós, leitores, temos de ver um livro no grande ecrã, não conhecem?! Mas, mesmo que o tenham feito, aqui fica uma dica de um livro que facilmente conseguem ler numa tarde…

“Mas não podemos confiar o coração a um animal selvagem: quanto mais lhe damos, mais forte fica. Até ter força suficiente para largar a correr para a floresta. Ou voar para uma árvore. E depois para uma árvore mais alta. E depois para o céu. É o que lhe vai acontecer, Mr. Bell, se se apaixonar por um animal selvagem. Acaba a olhar para o céu.”

[Opinião] “História de uma gaivota e do gato que a ensinou a voar” de Luis Sepúlveda

CCA4_LP_F02_XP8_dupLayoutQuem acompanha aqui o blog ou o canal já me ouviu dizer que um dos meus livros preferidos (e aquele que li mais vezes) é “O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá” do Jorge Amado. É que gosto de tudo. Gosto das ilustrações, acho a história um amor, o que levou o autor a escrever essa história também me enternece e não consigo apontar-lhe um defeito.

Posto isto, não é de admirar que este livro do Luis Sepúlveda, cujas personagens principais não são muito diferentes das do livro do Jorge Amado, me tenha chamado a atenção. Li-o no Kobo e nem por ser a preto e branco as ilustrações perderam o valor.

O título do livro já conta grande parte da história. Não é comum vermos um gato a cuidar de uma gaivota e as condições em que tal acontece são muito particulares. É uma história de companheirismo, de responsabilidade, de trabalho em equipa, de amor e de aceitação da diferença. É daqueles livros que se deve ler às crianças vezes sem conta. Não é à toa que já ando à procura de um exemplar em papel para mim!

Ainda assim, continuo a preferir “O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá”, talvez porque envolve um leque de personagens mais diversificado e porque temos uma história de amor noutro sentido.

[Opinião] “O Exorcista” de William Peter Blarry

6658202O livro “O exorcista” quase dispensa apresentações. Para além de já imensa gente ter visto o filme (1973), o próprio título do livro, a juntar à capa, dão grande spoiler para a história em si! Claro que temos um exorcismo feito por um homem!

Mas o que choca mais nesta história, a meu ver, é o facto de a exorcizada ser uma menina de 10 anos, que vivia apenas com a mãe e alguns empregados, visto que os pais estão divorciados. Dá aquela sensação que a menina está mais fragilizada por viver longe do pai, mas nunca se chega a perceber bem isso.

Saliento também o facto de esta família não ser, de todo, religiosa, mas submetem-se a rituais associados à Igreja Católica na tentativa de salvarem a criança.

Com este livro descobri o porquê de não ser grande fã de livros de horror/terror, embora seja dos filmes. Nos livros, demorámos imenso até chegar ao clímax. No caso d’O Exorcista, por exemplo, temos um livro com quatro partes. Na primeira parte, a mãe da menina (Regan) começa a ver alguns comportamentos estranhos nela. Aparecem também algumas personagens que se tornarão mais importantes mais à frente. Na segunda parte, a mãe da Regan leva-a a vários médicos na tentativa de procurar uma explicação científica para os seus comportamentos. Na terceira, já desesperada, recorre a um padre, vendo o exorcismo como último recurso. E só na quarta parte, a mais pequena de todas, o exorcismo efectivamente acontece. A sério que li um livro inteiro para só ter algumas páginas assim de mais acção?!

Nos filmes de terror, nomeadamente n’O Exorcista, há mais acção, é mais fácil ver ali o que efectivamente mete medo e não é à toa que este é daqueles filmes de terror que mais gente viu! Por isso mesmo, e apesar de já ter visto o filme uma meia dúzia de vezes, o livro leva de mim apenas 3,5 estrelas 😉

[Livo/Opinião] “A estranha vida de Nobody Owens” de Neil Gaiman

nobody owensResumidamente, este livro começa por contar a história de um bebé, cujos pais e irmã foram assassinados, que sobrevive às garras do terrível Jack e que vai parar a um cemitério, sendo adoptado por um casal de fantasmas, os Owens. Tem como tutor Silas, um ser que está algures entre o mundo dos mortos e o mundo dos vivos, que lhe arranja a comida de que o rapaz precisa (visto que, ao contrário dos restantes habitantes do cemitério, está vivo) e que faz a ponte entre o cemitério e o mundo lá fora. É nesse cemitério que o rapaz, a quem deram o nome de Nobody Owens (conhecido também por Bod), vai crescendo com o privilégio do cemitério, privilégio esse que o permite circular no tal cemitério de forma diferente do comum dos mortais. Lá vai fazendo vários amigos (fantasmas e outras criaturas), o que se vai mostrar muito importante ao longo da história. Será que o Jack já se esqueceu do rapaz que sobreviveu às suas garras? Ou continua à procura dele? Bem, terão de ler para o saber!
O que vos posso dizer é que apesar de ter gostado do livro, estava à espera de mais. Tudo por causa da fama que Neil Gaiman já conquistou. Ainda assim, reconheço que é uma boa obra para quem gosta de literatura infanto-juvenil que saia um pouco da realidade.
Do que mais gostei neste livro foi das ilustrações que antecedem cada capítulo, acompanhadas cada uma delas de uma citação, que praticamente nos preparam para o que vem a seguir. São muito bem conseguidas. A dimensão do livro é adequada para a história que conta, mas a dimensão de alguns capítulos deveria ter sido ajustada. Uns arrastaram-se mais do que era preciso e outros precisavam de mais qualquer coisa. 

Tal como a Cata (autora do blog/canal Páginas Encadernadas), que gentilmente me ofereceu este livro, mudaria o final de uma das personagens, a Scarlett, mas, quem sabe, talvez ela e Bod se voltem a reencontrar numa sequela que Neil Gaiman venha a escrever (isto sou eu a especular).

Inteligente da parte do autor (e máquina à sua volta, claro) foi o facto de ter publicado no youtube o booktrailer de The Graveyard Book (o título original deste livro), narrado por si, bem como todo o audiobook.

Classificação:
3.5estrelas