[Opinião] “Ashram” de Ana Luiz

27868053Li este conto por sugestão da Roberta (Blogue FLAMES). Para ser franca, se não fosse pelo seu entusiasmo e só pelo título eu talvez nunca o fosse ler (estão a ver a importância de trocarmos opiniões uns com os outros?). Embora agora que já o li tenha percebido o porquê do termo “Ashram” (se, tal como eu, não sabem o que significa talvez seja melhor fazerem uma pesquisa rápida), este seria talvez o único aspecto que, a meu ver, precisaria de ser repensado (apenas numa perspectiva de marketing literário).

Ashram é sobre um velho eremita que um dia recebe uma visita inesperada que acaba por se traduzir no final da história, algo que não estava à espera e que até me emocionou. Digamos que é algo que é particularmente familiar a muitos dos que me estão a ler e que está relacionado com a primeira frase do conto: Nos antigos territórios da Lusitânia, existiu em tempos um velho eremita. O problema dos contos é mesmo este: se disser muita coisa, estragaria a surpresa!

Este conto também se encontra disponível gratuitamente no Smashwords e podem acompanhar a Ana Luiz aqui. Gostei bastante da escrita da autora e tal como me aconteceu com mais contos de autores portugueses que li nos últimos tempos só tive pena que tivesse acabado tão cedo!

[Opinião] “Noites brancas” de Fiódor Dostoiévski

13500004Este é mais um dos muitos livros (dezenas, para ser um pouco mais precisa) de pequena dimensão que tenho na minha estante. Vou coleccionando-os porque considero o seu preço acessível e o seu formato muitas vezes engraçado, mas depois nem sempre os leio à mesma velocidade com que os compro!!! Uma vergonha!

Noites brancas (1848) é um dos vários contos publicados por Fiódor Dostoiévski, o conhecido autor de Crime e Castigo ou Os irmãos Karamazov, livros tão temidos pelo seu assustador tamanho. O título do conto remete para um fenómeno que ocorre na Europa que consiste, em termos bastante reduzidos, em noites mais claras, e é numa dessas noites que um homem (o Sonhador) e uma mulher (Nastenka) se conhecem. Ambos solitários, partilham as suas histórias um com o outro nas noites que se seguem, formando-se aqui uma amizade típica do século XIX, daquelas com diálogos dramáticos e dúvidas existenciais.

Esta obra mostra uma veia romântica que não sei se esperava do autor, mas é sempre bom sermos apanhados de surpresa e descobrirmos outras facetas dos autores que admiramos.

Não há muito que eu possa dizer sobre esta história tão pequena sem a revelar por completo (não leiam resumos dela em páginas como a Wikipedia, por favor!, porque vos contam tudo), apenas que se pode resumir na sua última frase: “Meu Deus! um instante de completa felicidade não basta para uma vida inteira?”.

[Opinião] “Olhos de vidro” de Carina Rosa

Carina Rosa - Olhos de vidroEm diferentes conversas com a Silvana, autora do blog Por detrás das palavras, surgiu, por diversas vezes, o tema “autores portugueses”, nomeadamente os que mais vão de encontro aos nossos gostos. Penso que não estou a cometer nenhuma inconfidência ao afirmar que a Carina Rosa é uma das autoras preferidas da Silvana, e talvez por isso eu queira gostar igualmente da autora.

Foi com essa expectativa que parti, hoje, nesta tarde chuvosa, para a leitura de um dos  seus contos que a Carina disponibilizou gratuitamente no Smashwords. Falo-vos de Olhos de vidro, mas a Carina também tem lá disponível outro conto intitulado A rapariga do lago.

Em Olhos de vidro, acompanhamos a história de Amanda, uma jovem actriz que nem sempre tem muita clara a distinção entre a sua vida real e os papeis que desempenha. Amanda, detentora de uns olhos claros (“olhos de vidro”) e de uma aura um tanto ou quanto perturbadora, deixa que essa confusão afecte a sua vida e a vida de várias pessoas à sua volta e tenho pena que este seja apenas um conto, e não um livro, porque a Amanda pareceu-me ser uma personagem digna de um enredo mais elaborado. Fiquei, sinceramente, com vontade de ler mais. É um conto trágico, com uma forte vertente psicológica, bastante intenso e perturbador como a personagem principal.

O final deste conto é qualquer coisa de nos fazer perder a respiração e gostei bastante deste registo da autora, que sei que também escreve romances românticos, algo que nem sempre é o meu género! Mesmo assim, vou dar uma oportunidade a A rapariga do lago e vocês também deviam dar!

[Opinião] “Cão como nós” de Manuel Alegre

3195992Se as minhas contas não me falham, já li este livro pelo menos umas quatro vezes. Tinha a sensação que a última tinha sido numa viagem de comboio e, de facto, pode mesmo ter sido, porque dei-me ao trabalho de contar desta vez o tempo que demorei a lê-lo e, pasmem-se, demorei 26 minutos!

Cão como nós é um livro com pouco mais que 100 páginas (mas metade delas são em branco, praticamente) e é daquelas recomendações que eu faço sempre que me pedem um livro pequenino ou sempre que me pedem para indicar um livro para quem não tem o hábito de ler. Afinal, a sua pequena dimensão aliada a um tema que agrada a tanta gente são motivos mais que suficientes para cativar qualquer um.

Não há propriamente neste livro uma história que eu vos possa resumir. Cão como nós é uma espécie de desabafo do seu autor acerca de um cão que viveu com a sua família durante muitos anos, o Kurika, e um relatar aleatório de algumas peripécias do Kurika e do seu (mau) feitio. Todos os cães o têm, não é mesmo?

O que me apaixona neste livro sempre que o leio é a forma como Manuel Alegre (sim, o político… que também é escritor, e dos bons!) atribui ao seu cão características tão humanas, fazendo dele um de nós (ou de nós um deles, daí o título), o que vem contrariar um pouco aquela ideia de que “cão é cão”.

Este é um dos meus livros preferidos pela sua simplicidade e, embora lhe tenha descido a classificação no Goodreads de 5 para 4 estrelas, não posso deixar de dizer que estão a perder um pequeno grande livro!

[Opinião] “Se isto é um homem” de Primo Levi

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Basta conhecer a biografia do autor para saber o desfecho deste livro: ele, judeu italiano, sobreviveu, de alguma forma, a vários meses em Auschwitz. É nesse “como” que assenta a base deste livro.

Este não é, desenganem-se, mais um livro sobre o holocausto. Isto como se algum livro sobre o tema pudesse algum dia descrever esse terror com exactidão. Muito pelo contrário. É um livro sem romances, sem floreados pelo meio, ou qualquer tentativa de atenuar um fardo pesado na história da Humanidade. É o relato pesado, sem dó nem piedade, de um químico que sobreviveu a esta atrocidade, que viu morrer pessoas sem conta, sem porquês.

Escrevi, há dias, no facebook, que este livro é um murro no estômago. E é mesmo. Mostra-nos como o homem perde a sua identidade quando se vê desprovido dos direitos mais básicos. Quando deixa de ter um nome e passa a ser um número. Quando não tem cabelo, barba, roupas, nada que o distinga dos demais. Quando vê a sua sobrevivência atribuída a factores como a sorte, a esperteza, o roubo. É o ser humano desprovido de dignidade.

Sobreviver nos campos de concentração implicava saber negociar, saber mentir, mostrar-se rentável, evitar sentir, ser criativo, pensar num dia de cada vez. As diferentes línguas dos prisioneiros era um entrave mas, mesmo assim, a amizade podia vir de onde menos se esperava. Para uns, como foi o caso de Levi, isso foi suficiente. Para outros, infelizmente, não.

Não se enganem com o número de páginas deste livro. Parece pequeno, mas é difícil de digerir. Sobretudo a recta final, onde a libertação de Primo Levi parece estar próxima e mesmo assim tanta desgraça acontece. O mundo ainda não se desculpou o suficiente com estes homens e mulheres…

“Não fariam também o mesmo? Se amanhã esperassem ser mortos com o vosso filho, não lhe davam hoje de comer?”

[Opinião] “Crónica de uma morte anunciada” de Gabriel García Márquez

Gabriel Garcia Márquez - Crónica de uma morte anunciadaNem sempre consigo ler autores que ganharam o Nobel da Literatura e, quando consigo, nem sempre concordo com essa atribuição. Mas no caso do Gabriel García Márquez é impossível não estar de acordo e querer ler mais coisas dele. Dele li, primeiramente, o Cem anos de solidão (péssima escolha para primeira leitura, devia ter sido a minha última deste autor) e já tinha lido uma vez tanto este, Crónica de uma morte anunciada, como o Memória das minhas putas tristes. Sábado passado, desafiada pela Raquel d’A toca do nunca, decidi participar numa maratona literária de 12h seguidas e estes dois pequeninos do G. G. Márquez foram dois dos meus escolhidos. E que livros…

G. G. Márquez conseguiu ter o título mais spoiler de sempre, o primeiro parágrafo mais spoiler da história e, mesmo assim, escrever um livro algo imprevisível. Nele, temos o relato das últimas horas de vida de Santiago Nasar, um jovem que está prestes a ser assassinado no dia da visita do bispo, algo que toda a gente comenta menos com ele! Isto porque Santiago foi agindo ao longo destas horas como se não tivesse medo, como se tudo estivesse bem, e ninguém queria acreditar que os seus assassinos (dois gémeos irmãos de uma recém casada não-virgem que acusa Santiago de a ter deflorado) o iam fazer de facto.

É uma história com vários avanços e recuos, ficamos sempre a pensar “é desta?”, e nunca sabemos ao certo quem deve ser considerada a maior vítima aqui (o Santiago que foi assassinado ou os que ficaram vivos e têm que conviver com o peso da sua morte?). O relato é feito vários anos após o crime e até nos fica a dúvida se será um relato fidedigno ou uma história contada e recontada. Esse é, aliás, mais um dos aspectos que fazem deste livro tão especial.

Uma leitura que recomendo, sem dúvida alguma!